agosto 22, 2003

Sérgio Vieira de Mello, a pessoa

Filho do embaixador Arnaldo Vieira de Mello e de sua mulher Gilda, Sérgio Vieira de Mello nasceu em 15 de Março de 1948, no Rio de Janeiro, partindo poucos dias depois para a Argentina onde seu pai estava colocado.

Concluiu o liceu em 1966 no Liceu Franco-Brasileiro, Laranjeiras, onde tambem estudaram outros famosos como o ex-presidente da Fifa João Havelange e o arquitecto Oscar Niemeyer.

Indo para a Europa concluiu Filosofia em Friburgo e, a seguir, o Mestrado em Filosofia na Universidade de Paris. Mais tarde doutourou-se em Letras e Ciências Sociais pela Sorbonne, Paris.

Na Sorbonne conheceu Anie, com quem casou e de quem teve dois filhos: Adrien e Laurent. Laurent, estudante, actualmente com 25 anos, vive nos arredores de Genebra com a família. Não falando português, ele afirmou que, sempre que seu pai saía em missão, a família ficava temendo o pior: "Nós ficavamos sempre com medo, mas era esse o seu trabalho"!

Desgostoso pelo tratamento dado ao pai pela Ditadura Militar Sérgio Vieira de Mello desistiu da carreira diplomática pelo Brasil e ingressou na ONU en 1969, com 21 anos.

Aí começou uma vida de riscos, dificuldades e sucessos:
1971: Bangladesh; Sudão, Chipre e Moçambique
1981: Libano; América Latina
1991: Albânia; Camboja
1993: Bósnia
1996: Alto Comissariado da Onu para os Refugiados
1998: Kosovo
1999: Administração Transitória de Timor-Leste
2002: Alto Comissário para os Direitos Humanos
2003: Representante da Onu no Iraque!

Sua mãe, D. Gilda, ainda é viva mas com problemas de saude. Assim, segundo André, filho de Sónia dos Santos Vieira de Mello, única irmã de Sérgio, a notícia da morte do filho foi dada com muito cuidado pelo Dr. António Vieira de Mello, médico e primo do diplomata.

Com este tipo de vida não era facil manter uma situação familiar estavel. Quando lhe perguntaram como conseguia conciliar as duas coisas Sérgio Vieira de Mello respondeu:

Tenho dois filhos, Adrien de 23 anos e Laurent de 25 mas, infelizmente, tenho vivido separado deles. A minha carreira é irreconciliável com a vida particular e de conseqüências dramáticas para a família. Assim eles vivem na Europa, já que minha mulher é francesa. Não os tenho visitado ultimamente. Enfim, cada um leva a sua vida e é difícil reunirmo-nos e encontrarmos um momento que convenha a todos.

Porem, em Timor Leste, foi nomeada responsavel do Departamento de Finanças uma argentina, Carolina Larriera, nascida em Bahia Blanca em 13 de Fevereiro de 1973, alguns meses depois da morte do pai. Ela tinha começado a trabalhar para a Onu em 1991, como voluntária e enquanto estudava economia. Aí, em Timor, Sérgio e Carolina conheceram-se e nada ficou como dantes.

Segundo a mãe, Norma, a loira Carolina é desportista, aventureira e muito responsavel. Segundo Pablo, seu irmão de 31 anos, ela tinha-se queixado de falta de segurança em Bagdade. Carolina tinha razão: o noivado que se desenvolvia entre ela e Sérgio, alicerçado nas visitas que faziam às mães de ambos, ficou interrompido. Definitivamente!

Publicado por polilog em 05:51 PM | Comentários (45) | TrackBack

agosto 20, 2003

O martir Sérgio Vieira de Mello

Agora, por todo o lado e por toda a gente, são elogios, minutos de silêncio, dias de luto. É bonito e fica bem, o homem merece. Só que Vieira de Mello era um homem de causas e morreu por essas causas. Logo Sérgio Vieira de Mello é um martir, um martir pelas suas causas, um martir pelas causas da humanidade.

Ora um martir merece mais que elogios e minutos de silêncio. O sangue de um martir, e Vieira de Mello foi morto no seu posto e pelas suas causas, exige muito mais. Exige pelo menos duas coisas: exige que se olhe para as causas que defendia e exige que se olhe para o que levou à sua morte.

Sendo Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos e passando a maior parte da sua vida trabalhando nos campos da ajuda humanitária e da manutenção de paz, as suas causas eram claras e bem definidas. No momento essas causas eram especialmente dirigidas ao povo iraquiano, que foi quem ficou mais a perder. Trabalhando sobre um barril de pólvora e tentando evitar que ele explodisse, o desaparecimento de Vieira de Mello é uma perda verdadeiramente grande para todas as potenciais vítimas desse tremendo barril. É bom que se pense nisso e que nos decidamos a contribuir com o nosso extintor pessoal, se não tivermos nada de melhor: nunca se sabe até onde vão os efeitos do barril.

Por outro lado é preciso ver como e porque é que ele foi morto. É preciso ver porque e como surgiram as forças e reacções que levaram à colocação de explosivos no camião. É preciso olhar para a cadeia de causas e efeitos, para as decisões erradas, para os interesses monstruosos que estão por detrás de tudo isso. É preciso olhar em todas as direcções!

Descanse em paz, Senhor Vieira de Mello, os sobreviventes continuarão a sua obra!

Publicado por polilog em 12:57 PM | Comentários (41) | TrackBack

agosto 19, 2003

Abertura

Politicofobia é um estado de cidadania que, embora começando lentamente, pode facilmente atingir um grau epidémico e letal.

Os vectores de propagação são vários e variaveis. Os mais frequentes são a imaturidade cívica dos governados e a imaturidade política dos governantes.

Os vectores de propagação podem ser potenciados por vários factores, nomeadamente, a incompetência, a ambição desajustada, a falta de jeito e a maçariquice dos governantes. Nos governados expectativas exageradas, desiluções sucessivas, situações continuas de crise económica ou social podem desenvolver o mesmo efeito.

O fenómeno é complexo mas bem conhecido e, por vezes, muito mais frequente do que devia, com uma alta taxa de incidência sobre a população.

A sua gravidade potencial não é pequena e os seus efeitos podem tornar-se catastróficos.

Voltaremos ao assunto.

Publicado por polilog em 12:17 PM | Comentários (0) | TrackBack